< voltar
 
(Faça o download desta Entrevista)
Entrevista com Marcelino Freire
Por Cristhiano Aguiar
 

1. Marcelino, bora falar de um assunto que muitas vezes é tabu no meio literário: dinheiro. É possível viver de literatura no Brasil, mesmo não sendo um best-seller? Como você vê o mercado editorial hoje, em relação à nossa literatura contemporânea? Você considera que o trabalho intelectual dos escritores brasileiros – falo de direitos autorais, oficinas, palestras, ensaios, bolsas, entre outras formas de renda – é, de modo geral, remunerado de maneira justa?

RESPOSTA: Ave nossa! Dinheiro, em qualquer meio, é sempre um assunto tabu. Tudo que envolve grana, tramóia, nóia, sei lá. Mas vamos aos números: que números? Olhe só: eu não consigo viver de literatura. Até, de um tempo para cá, tenho recebido uns cachês. Ora dando palestras, ora na venda de livros, de direitos, de contratos com a Record. Ora como curador de algum troço. Não reclamo. Mas não posso contar com a literatura para pagar as minhas contas. Não é salário fixo, entende? Por isso, ainda trabalho meio período em uma agência de propaganda. É ela quem me garante a renda maior. Mas enfim. Creio que as coisas estão melhorando. Há muitas editoras chegando. Hoje, já olham com outros olhos os autores contemporâneos. E, modéstia à parte, isso aconteceu um pouco por causa do movimento que fizemos: eu, Nelson de Oliveira, Joca Reiners Terron, etc. A gente chamou a atenção. Brigou, gritou. Fez a roda rodar. Estamos, inclusive, aprendendo a nos profissionalizar. Digo assim: cobrar a quem temos que cobrar. Muito caminho ainda para caminhar. Mas a gente chega lá. Onde, hein? Me fala.

2. Você ganhou, este ano, o Prêmio Jabuti de contos com o seu livro Contos Negreiros. Além da inegável solidez literária do seu trabalho, me parece que o Jabuti foi concedido a você também como uma espécie de chancela a uma nova geração, da qual você faz parte, que chegou com força, procurando renovar o nosso panorama literário. É uma leitura exagerada?

RESPOSTA: É uma leitura possível. Prêmio nunca é assim, só por causa do livro, creio. É um conjunto de parágrafos. De coisas. Mas legal que tenha sido dessa maneira, em vez de ser assim, carta-marcada, compadrio. Legal que tenha sido tipo: “está na hora de premiar alguém da nova geração”. E que mais prêmios apareçam. Porque há gente muito boa. Nelson de Oliveira, por exemplo, já está na hora de dar um Jabuti para ele. Outro que merece, faz tempo, é o Marcelo Mirisola. Até para o Mirisola não ficar, toda vez que me encontra, pedindo o dinheiro que eu ganhei lá no Jabuti... Uma figura! Mas voltemos: acho, e repito, que o Jabuti é um conjunto de coisas. Eu fiz muito barulho. Não há como me colocar mais para debaixo do tapete. Dizem até que quiseram me calar com o Jabuti. Não creio. Porque tenho até falado mais. Blábláblá. Agora que me deram munição, eu vou bem deixar de atirar? E tem mais: muita gente veio compactuar comigo o prêmio. Escritores novos, inéditos, do centro, da periferia, dizendo que finalmente viram um “frescor” (eu disse “frescor” e não “fresco”, hein?) no Jabuti. Sentiram-se representados e premiados, de alguma forma. Achei isso muito bom, etc. e tal. Fiquei feliz com esse reconhecimento vindo por tabela.

3. Pesquisando, me surpreendi com um danado de um Prêmio Jaburu, que você criou para fazer uma brincadeira com o Jabuti. Na verdade, me interessa menos o tal Jaburu em si e mais o fato de que, mesmo numa brincadeira, se sobressaem duas características marcantes da tua obra: o humor, às vezes um tanto cruel, e o gosto pelo feio (acho o jaburu um bicho meio feioso). Queria que você comentasse isso na sua obra.

RESPOSTA: Ave nossa! Quando eu fui indicado ao Jabuti, achei que estava ali, na lista do prêmio (dez autores ao todo), só por figuração. E achava, idem, que eles levariam em conta o concurso que eu fiz há um tempo no meu blogue (www.eraodito.blogspot.com). Eu, na verdade, reinstitui o Prêmio Jaburu de Literatura. Quem criou esse prêmio foi o escritor Ronaldo Bressane na revista Trip. Eu, revoltado com um resultado do Jabuti — em que havia sido indicado o Marcelo Mirisola e quem ganhou, ao que me parece, foi a Nélida Piñon —, quis ressuscitar o Jaburu. Deu uma confusão danada. A votação foi parar na Folha de S. Paulo. Dois anos se passaram e aí eu fui indicado ao Jabuti. Alguns amigos apostam, inclusive, que eles quiseram se vingar de mim. Assim: e agora, o que ele vai falar? Pois eu agradeço aos jurados que votaram em mim. O Jabuti, confesso, sem modéstia, foi quem ganhou com isso. Premiando a mim está premiando idem a todo um pessoal que tem agitado a cena literária. Agora, veja bem: o que não posso é me sentir um Jabuti. Achar que o prêmio é o patamar máximo. Que agora estou consagrado, essas coisas. Longe disso: agora é que eu tenho que escrever mais e mais. Fiz questão, no dia da premiação, de levar o Jabuti para a Mercearia São Pedro, bar que fica na Vila Madalena e que é onde a gente se encontra para beber e bolar projetos literários. Eu dei a Mercearia de prêmio ao Jabuti. Ele está lá, em uma das prateleiras. Coloquei-o onde ele sempre deve estar, onde toda a literatura também deve estar: ao lado do pastel, da batata frita, do provolone. E da cachaça. Ah! E você havia me perguntado sobre o humor e o feio na minha obra. Em vez de eu responder, indico o livro do professor Janilto Andrade (“A Arte e o Feio Combinam?), que acabou de ser publicado pela editora Fasa. Janilto faz um estudo sobre o feio e a arte. Mistura os espelhos. E lá analisa o feio, o humor, o palavrão e um outro tantão no meu trabalho. Recomendo. Ensaio belo, belo!

4. Sua literatura nos livros Angu de Sangue, BaléRalé, eraOdito, Contos Negreiros é veloz. É também feita de cacos de realidade e de algum desespero. Você concorda com Italo Calvino, quando ele diz: “Nos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam, a necessidade de literatura deverá focalizar-se na máxima concentração da poesia e do pensamento”?

RESPOSTA: Eu tenho dificuldade, assim, para analisar uma frase. Digo assim: filosoficamente, cientificamente, artisticamente. Toda vez que me perguntam o que eu achei de uma frase, eu digo: “achei bonito”. Eu sou meio desligado, meio lento no raciocínio, entende? Mas gosto desta coisa que você falou: “algum desespero”. E dessa coisa que o Calvino falou: “poesia”. Fico com essas duas coisas e acho que bastam. Acho que tem um desespero comigo sim, uma inquietação, uma dor aguda. Sempre digo: eu escrevo para me vingar. De uma saudade, de um governo, de um esquecimento, de um tédio. De um peso danado no meu peito, sei lá. E a minha vingança é feita pela poesia. O que eu escrevo é poesia. É música. Eu tenho dificuldade para chamar os meus contos de “contos”. Prefiro chamar de “cantos”. De “improvisos”. Eu tenho essa coisa comigo. Ritmada, muito forte. São pelejas. Eu gosto de exorcizar esses sons. Eu escrevo de forma desesperada. E sonora. Acho que é isso... Respondi à sua pergunta?

5. Há um aspecto musical marcante na tua prosa. Muitos contos são monólogos construídos com um ritmo bem marcado. Os contos Trabalhadores do Brasil e Curso Superior, do livro Contos Negreiros, por exemplo, me lembraram quase ladainhas, com direito a refrões. De fato, o recurso da oralidade é bem-empregado: você é um escritor que tem um bom ouvido. Há alguma influência da poesia popular nordestina na tua obra? Cantorias, por exemplo?

RESPOSTA: É o que eu falava na resposta anterior. Eu nunca tenho uma história para contar. Eu tenho um som para costurar. Vou de ouvido. Guardo sempre uma frase comigo. E quero fazer alguma coisa com aquele ruído que ficou pendurado na minha memória. Costumo dizer que eu trabalho com uma memória musical. Isso não vem influenciado diretamente da poesia popular nordestina. Vem pelo fato de eu ser filho de sertanejos. E de minha mãe ser uma figura assim: queixosa. Cheia de monólogos. Nervosos. Sempre friso: minha mãe cantando Luiz Gonzaga na cozinha me influenciou tanto quanto Guimarães Rosa. Bebi dessa fonte lá em casa, entende? Outro aspecto é o teatro. Eu comecei escrevendo para teatro. Eu queria muito ser ator. Então meus textos têm esse drama, carregam alguma luz cênica. Anêmica, sei lá. Eu escrevo em voz alta. Texto para ser dito. Gritado. Escutado. É isso: eu escrevo porque eu quero escutar. Porque eu escuto. Tudo bate em mim, assim: num sopro. Num bafo.

6. Sinto que a forma como você aborda os problemas sociais brasileiros e a crueza da violência urbana — outros dois importantes temas presentes no teu trabalho — te conduz, às vezes, a um neo-naturalismo ingênuo, que enfraquece o resultado estético. Gostaria que você comentasse isso.

RESPOSTA: Eu, de fato, trabalho com temas muito fronteiriços. Reconheço que meus contos para descambarem num discurso raso, numa ingenuidade panfletária, reducionista, é um passo. Vivo me equilibrando, me enforcando nessa corda bamba. É um inferno. Mas olhe: eu prefiro correr esse risco. Eu preciso colocar a janela na bunda. Perigo é comigo. Explico: quero raivosamente desabafar, sei lá. Repito: eu escrevo para me vingar. Eu quero estourar essa agonia que está dentro de mim. É como soltar um palavrão, dá um chute no juízo. Eu quero me livrar de um aperreio, enfim. E faço isso. Escrevo essa ladainha, esse urro. Meus personagens estão sempre na urgência. Falando pelos cotovelos. Acerto o tom em alguns contos, em outros, como disse, descambo. Mas prefiro assim. Do que fazer literatura que não fede nem cheira. Podem me acusar de qualquer coisa, menos de que sou frígido. Eu sou intenso. Cramunhão no que eu faço. Gosto de parágrafos agoniados e bêbados. Borrados. Enfim, assado. E isso tem um custo. Um risco, sim. Mas encaro. Ah! Para terminar, já ouvi falarem isso: de que faço parte de um “neo-naturalismo”. Ave! Se é assim que chamam esse meu jeito de “sacudir o verbo”, então é isso. Eu sou “neo-naturalista”. Mais até: ponha aí. Anarquista. “Neo-naturalista-anarquista”, seria?

7. No conto Nação Zumbi, o narrador diz: “Meu sonho não foi sempre o de voar, feito um Orixá? (...) Diz aí, meu irmão, minha asa quem mandou cortar?” É uma das funções do escritor dar asas àqueles que ficaram mudos, esmagados por 500 anos de injustiças?

RESPOSTA: Falam, para mim, uma coisa muito parecida: de que “eu dou voz   àqueles que não têm voz”. Não concordo. Que porra é essa? O mais correto seria dizer “que eles dão voz à minha prosa”. Frase, assim, “dá voz aos que não têm”, parece coisa de igreja. Outra: não concordo quando um escritor diz que escreve para salvar alguém. Longe disso. Eu não posso prometer salvação para ser humano nenhum, entende? Quem promete isso é religião. Eu apenas escrevo. E repito: escrevo aquilo que me agonia. Se essa mesma agonia bater no leitor, maravilha! Mas, no fundo, não acredito nessa redenção, sei lá. Seria muita pretensão achar que o que eu escrevo vai aliviar os injustiçados. Ou algo assim. Não quero carregar essa “palavra” comigo. Não quero essa “função” para o que eu escrevo. Acho até que a literatura é isso: um abismo. É olhar e querer se atirar. Eu escrevo porque eu preciso escrever isso, registrar isso: esse abismo. Oh! E é só. Façam o que quiserem à boca desse precipício.

8. Que conselhos você daria aos escritores iniciantes, principalmente aos que não publicaram seus livros ainda?

RESPOSTA: Conselhos, eu? Eu gosto sempre de repetir um conselho que deu o Millôr Fernandes quando pediram para ele uma palavrinha para os autores iniciantes. “Que conselho você daria, Millôr?”. E Millôr respondeu: “Tenham sorte”. Maravilha! Mas, enfim. Diria mais: escrevam, escrevam, escrevam. E reescrevam, reescrevam, reescrevam. E bem-vindos a essa maldição! Aliás, por que escolheram a literatura? Vocês não têm mais o que fazer não?