-
10.10.2008
Alterar tamanho da letra
Depois de um curto periodo de recesso, temos o prazer de informar a todos que a Crispim está mais uma vez retomando as atividades. Dessa vez, com uma novidade: a partir deste 11 de outubro (amanhã), às 17 h, a revista passará a realizar encontros mensais com escritores, artistas e críticos, a acontecer no café da Galeria Arte Plural (Rua do Moeda, 140, Recife Antigo).
Neste primeiro encontro, Fábio Andrade, Artur de Ataíde (editores da revista) e Lourival Holanda (crítico literário e professor do programa de pós-graduação em Letras da UFPE) conversarão com o poeta cearense Everardo Norões, considerado atualmente um dos mais importantes nomes da poesia contemporânea no Brasil. Norões falará do seu novo livro, Retábulo de Jerônimo Bosch, que acaba de ser publicado pela editora 7 Letras e que será lançado durante o Crispim Debate. Além disso, serão debatidos os rumos da poesia contemporânea no Brasil e na América Latina, o resgate da obra de Joaquim Cardozo (Norões organizou, para a editora Nova Aguilar, as obras completas do poeta pernambucano), entre outros temas.
O segundo encontro, cuja data ainda não foi definida, ocorrerá no final de novembro. A conversa será com o escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito, que lança, no mesmo mês, o seu novo romance, Galiléia, pela editora Alfaguara.
Encontramo-nos por lá.
Abraços,
Os editores
Palavra(s)-chave:
crispim lançamento Everardo Norões
-
02.08.2008
Alterar tamanho da letra
Se não uma nova postagem, ao menos meia. Clicando no link abaixo — é o novo site da Revista Continente Multicultural —, é possível ler a metade de um texto que escrevi depois de nossa visita, aqui no blog, a algumas páginas de Eliot. É uma reflexão sobre tradição e novidade na poesia de agora. Se o texto não estivesse lá, muito provavelmente estaria aqui, em nosso blog.
O link: http://www.continentemulticultural.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=+2839+&Itemid=95
O texto integral, como é costume, só se lê comprando a revista, que deve estar chegando às bancas. Para quem não conhece a Continente ainda, um passeio pelo novo site é uma boa pedida.
Mas, voltando ao nosso blog, e a Eliot, vai em primeira mão o registro: além da canção de Prufrock, algumas outras composições deverão em breve figurar em nosso cardápio — ao menos uma delas, que, apesar da pouca extensão, tem feito questão de deixar bem claro que não vai facilitar para a língua portuguesa. ("Lutar com palavras/ É a luta mais vã", já disse alguém que disso entendia de verdade). Quanto ao mais, a terceira (e última) parte do nosso "Ouro, prata, bronze" também está a caminho. Por enquanto, vamos em frente.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
crispim crítica Revista Continente Multicultural poesia literatura
-
25.07.2008
Alterar tamanho da letra
O Dia Nacional do Escritor é comemorado hoje no Gabinete Português de Leitura (GPL), às 17h, com o lançamento dos livros A emoção da palavra, de Waldênio Porto, presidente da Academia Pernambucana de Letras, Só às paredes confesso, de Vital Corrêa de Araújo, presidente da União Brasileira de Escritores, secção Pernambuco (UBE-PE), O moinho, de Alexandre Santos, Falares de Portugal, falares do Brasil, de Esmeralda Camacho, e Mulheres que mudaram a História de Pernambuco, de Carlos Cavalcante.
A cerimônia será presidida por Vicente Miranda, presidente do GPL, que entregará diplomas a personalidades, entre elas o presidente da Academia Brasileira de Letras Marcos Vilaça, o editor Tarcísio Pereira, o senador Marco Maciel, o deputado Guilherme Uchoa, o desembargador Jones Figueiredo (presidente do TJPE), os jornalistas Evaldo Costa (Secretário de Imprensa de Pernambuco), Ivanildo Sampaio (diretor de Redação do Jornal do Commercio), Ricardo Leitão, Marcus Accioly e Leda Alves.
A homenagem marca o início das comemorações pelos 50 anos de fundação da UBE-PE e contará com a palestra de Antônio Campos sobre o tema O futuro do livro. Também participa da palestra o jornalista e escritor Laurentino Gomes, que está no Recife para lançar as novas versões do best-seller 1808, uma juvenil e outra em áudio. Eles irão abordar os formatos emergentes do e-book e do audioivro.
A fadista Margot Cavalcanti, do grupo musical do Conservatório Pernambucano de Música, fará uma apresentação especial. Outra atração da noite é Murilo Gun, pioneiro da stand up comedy no Nordeste, um gênero de humor nascido nos Estados Unidos.
Mais cedo, às 17h30, a mesma palestra será proferida no Porto das Letras, espaço literário recém-aberto pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife.
» Porto das Letras – Avenida Rio Branco, 76, Bairro do Recife. Fone: 3232-2898. Gabinete Português de Leitura – Rua Imperador Pedro II, 290, Santo Antônio. Fone: 3441-7488.
Palavra(s)-chave:
crispim seminário
-
16.07.2008
Alterar tamanho da letra
Palavra(s)-chave:
crispim Nós Pós
-
13.07.2008
Alterar tamanho da letra
O Suplemento Cultural Pernambuco trará, na sua próxima edição, uma antologia com novos escritores de Pernambuco. A Crispim comparece na antologia com alguns poemas de Fábio Andrade e um conto de Cristhiano Aguiar.
Vocês estão convidados para prestigiarem o lançamento e participarem do debate. Local: Livraria Cultura, dia 14/07 (segunda), a partir das sete horas da noite.
Nas semanas seguintes, publicaremos, aqui no blog, duas resenhas sobre esta antologia, escritas por Eduardo Maia e Cristiano Ramos.
Palavra(s)-chave:
cânone crispim lançamento crítica poesia contemporânea ficção contemporânea
-
10.07.2008
Alterar tamanho da letra
II. Vamos à visita
Quanto às traduções do poema de Eliot para o português, tenho notícia de apenas duas: uma é portuguesa, de João Almeida Flor; a outra, facilmente encontrável em nossas livrarias, é da autoria de Ivan Junqueira, que traduziu não só a totalidade dos poemas de Eliot, mas também todas as suas peças — a edição é bilíngüe, além de belíssima (Arx Editora, de São Paulo). Ambos os textos podem ser encontrados na Internet, assim como o texto original. Quem quiser ouvir o próprio Eliot recitando, estrofe por estrofe, há um site excelente: http://www.usask.ca/english/prufrock/prustart.htm.
Uma prova de fogo para as traduções: ler o texto em português, verso a verso, logo em seguida à leitura que faz Eliot ele mesmo de cada verso, ou, tendo lido bastante o original, em voz alta e segundo a pequena cartilha apresentada na parte I desta postagem, impregnando-se de seus ritmos, fazer o mesmo em seguida com cada uma das traduções. Daí é só comparar as várias experiências resultantes. Isso, claro, é um esporte que vale para todos os interessados, mas diria francamente indispensável para quem queira praticar esse tipo de arte. Se o verso é uma doença especial do ouvido, como diz um trecho de W. H. Auden que acabo sempre citando, esse tipo de estudo é um modo certo de contaminação.
O poema — finalmente — é longo: dos seus 140 versos, a tentativa de tradução que trouxe hoje cobre menos de 30. Nela, traí a literalidade do original sempre que julguei necessário, mas, dentro das minhas limitações, substituí-la sempre por imagens que não destoassem do todo, ou seja, que não traíssem a poética geral de Eliot. Se os resultados obtidos pelo próprio Eliot com o trabalho rítmico, de fato, são decisivos para a experiência que a leitura do poema proporciona, segundo me obriga a crer piamente a minha experiência de leitor, creio que eu poderia ter cometido crimes muito maiores (como fiz ao adicionar uma ou duas sílabas a alguns versos, mas devo ainda decidir sobre sua permanência). Por fim, advirto: é uma tentativa preliminar, e não há garantia alguma de que ao fim da semana tudo esteja exatamente como agora.
O movimento rítmico da primeira estrofe, veremos, guarda algum parentesco com a que vimos de Camões — a alternância dos metros longos e curtos —, e foi esse o aspecto que me serviu de pretexto para esta postagem. Mas também é só: a canção de Eliot tem estrofes desiguais entre si, diferentemente do que ocorre no outro exemplo, e a dinâmica dos pensamentos de Alfred é bem diferente da que podemos vislumbrar nas canzoni. Em muitos, em muitos aspectos, fica claro que os tempos são outros, e outros já somos nós. É uma pena que o início traduzido seja muito pouco, ainda, para que Alfred adentre melhor o seu assunto: esse é precisamente um dos pontos-chave do caráter pintado por Eliot. As estrofes, de início desconexas, vão revelando com o andar do poema o mosaico orgânico de que fazem parte, como um pensamento vivo que se desenvolve desordenada, mas musicalmente (relações desse aspecto com a obra de Henri Bergson não serão mera coincidência). Quem sabe mais adiante arrisco mais algumas estrofes, para deixar menos vago o propósito do poema.
Uma última observação oportuna: das muitas formas possíveis de harmonia, salvo engano maior, apenas algumas poucas terão a ver com a simetria. Frank Lloyd Wright, por exemplo, se fosse escritor em vez de arquiteto, pouco provavelmente seria um sonetista: bem mais fácil que tivéssemos nele um segundo Prufrock. Quero acreditar que a leitura da tradução, com sorte, deixe claro que regularidade métrica e musicalidade são elementos na verdade independentes, podendo ocorrer, em ambos os casos, um sem a companhia do outro.
Sem mais, fica o convite: à leitura do texto original de Eliot e à leitura de toda boa poesia.
Até o próximo.
(Artur A. de Ataíde)
.......................................................
A canção de amor de J. Alfred Prufrock
(T. S. Eliot – Trad. Artur A. de Ataíde)
Vamos juntos, tu e eu,
Quando a noite pelo céu já se estendeu
Como um corpo eterizado sobre um leito;
Vamos juntos, por atalhos de subúrbio
Que cessam seu murmúrio
De sons de noite em claro nos hotéis
E lâmpadas em curto nos painéis:
Ruas curvas como longos argumentos
De insidioso intento
Que levam à questão indevassável...
Ah, não peças "oh, me diga":
Façamos juntos a visita.
Há mulheres pela sala andando.
Estão falando em Michelangelo.
A névoa parda que lacera a pele nas janelas,
A névoa suja que lacera o dorso nas janelas
Correu a língua pelos côncavos da noite,
Pairou por sobre o piso das soleiras,
Fez vir no dorso o lodo gris que assola as telhas,
Deu num terraço, fez um curto salto,
E vendo que era outubro um mês suave,
Deitou por sobre a casa, num abraço.
E decerto haverá tempo
Para a névoa que desliza pelas casas,
Para a névoa que lacera a pele nas janelas;
Haverá tempo, haverá tempo
(...)
Palavra(s)-chave:
cânone poesia tradução T. S. Eliot Prufrock
-
07.07.2008
Alterar tamanho da letra
Ah, sim, quase esquecia:
Aqui estão blogs legais falando da Flip:
http://marcelotas.blog.uol.com.br/
(Blog do Tas)
http://sergiorodrigues.ig.com.br/
(Blog do Sérgio Rodrigues)
http://blogdaflip.wordpress.com/page/2/
(O blog "oficial" da Flip)
(Cristhiano Aguiar)
Palavra(s)-chave:
blog crispim
-
07.07.2008
Alterar tamanho da letra
Nos últimos anos, cada vez mais a literatura consegue algum espaço na imprensa através das feiras, festivais, festas literárias. Uma das mais importantes, a Flip, terminou neste fim de semana.
Aqui em Pernambuco temos três principais eventos sobre literatura: a Fliporto, o Festival Recifense de Literatura e a Bienal.
Não tenho nada contra este tipo de eventos.
Acho que é uma forma de tirar os escritores da toca. Qualquer modo de proporcionar encontros entre escritores, leitores e potenciais leitores é positiva. O que não pode? Enxergar esse eventos de maneira ingênua, sem tentar compreendê-los dentro da lógica de mercado que os move. Ou deixar de prestar muita atenção no modo como cada um destes eventos gasta o inevitável dinheiro público - que você desembolsou, meio mal-humorado, da sua conta - necessário para a realização de quase totalidade destas festas.
É justamente sobre mercado editorial, lei Rouanet, mídia & literatura o interessante texto "Afoitos por visibilidade", escrito por Ana Paula Sousa e publicado na Carta Capital. Aqui está o link:
http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=1298
Colo um trecho do artigo:
Há pouco mais de um ano e meio, a Ediouro contratou o publicitário Lula Vieira para tocar um departamento com cerca de 30 pessoas. Seu primeiro trabalho foi com O Segredo: "Aí a gente reproduziu o lançamento de um filme, de um perfume". Orgulhoso do posto, Vieira adora falar sobre o negócio e, ao contrário dos editores, ciosos de sua função cultural, não teme explicitar as regras do xadrez de cifrões. Ele diz que o marketing começa na captura do autor, passa pelo livreiro e, claro, aterrissa na imprensa. A potência do tiro está diretamente ligada ao tamanho do lançamento e ao perfil da obra.
"Um livro da Maitê Proença precisa de menos investimento em marketing porque a imprensa vai dar capa dos cadernos", ensina. Numa tiragem de 4 mil a 5 mil exemplares, o marketing resume-se à internet e ao trabalho com a imprensa. A partir de 40 mil, vale a pena criar um brinde para a imprensa e o livreiro. "Com 100 mil exemplares você faz coquetel para os livreiros, convida o jornalista para ir a Cannes entrevistar o autor", detalha, referindo-se, obviamente, a Paulo Coelho, capturado pelo grupo. "Quando é megaoperação, a gente foge da crítica, tenta colocar uma matéria num caderno de negócios, numa coluna de fofoca." O próximo livro de Coelho, a ser lançado em agosto, consumirá uma verba de marketing de 1 milhão de reais.
Já o texto "Brasileiro está lendo mais poesia?", de Felipe Lindoso, faz uma análise de alguns dados estatísticos levantados por uma das últimas pesquisas sobre hábitos de leitura no Brasil. Eis o link:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3360
E um trecho:
A partir desses números, entretanto, não se sustenta a idéia de que "os brasileiros" em geral estão lendo mais poesia. É impossível comparar com precisão os dados das pesquisas de 2000 e 2008 a respeito, mas as poucas porcentagens que vimos mostram que as diferenças para a população acima de 14 anos não são tão significativas quanto poderiam parecer.
A persistência da preferência pela poesia na idade adulta desses jovens que estão com menos de 14 anos hoje é algo que só poderemos ver quando fizermos, no futuro, novas pesquisas do gênero Retratos da Leitura no Brasil.
Até lá os poetas têm que trabalhar – muito além de escrever as poesias – para que essa preferência não esmoreça. Ao contrário, que se consolide. Para isso é importante que os poetas sigam o velho chamado de Castro Alves e se dirijam ao encontro de seus jovens leitores nas escolas, nas feiras de livros, em festivais de poesia.
(Cristhiano Aguiar)
Palavra(s)-chave:
blog crispim Flip
-
04.07.2008
Alterar tamanho da letra
E parabéns pro nosso colega Fábio Andrade, vencedor do Prêmio Literário Cidade do Recife 2008 na categoria poesia. Hoje à noite, ele estará no Opinião Pernambuco, junto com Anco Marcio, Nelly Carvalho e Fernando Monteiro, conversando sobre literatura e cultura em geral.
O programa começará a partir das 20 hs na TV Universitária, sob a mediação do jornalista Cristiano Ramos. Aqui está o blog do Opinião Pernambuco:
http://sextacultural.zip.net/
E estes são os outros vencedores da edição 2008 destes prêmio:
Amaro Queiroz (categoria Teatro - Prêmio Elpídio Câmara)
Vanessa Campos Rocha (categoria Ficção - Prêmio Lucilo Varejão Filho)
João Alfredo dos Anjos (categoria Ensaio - Prêmio Jordão Emerenciano).
Outros dois escritores daqui de Pernambuco se saíram bem no concurso da OFF FLIP 2008. Raimundo Moraes e Márcia Maia foram os ganhadores na categoria Poesia.
Aqui está o blog de Márcia Maia: http://www.mudancadeventos.blogger.com.br/
E aqui vocês podem ler a coluna que Raimundo de Moraes mantém no site Interpoética:
http://www.interpoetica.com/os_olhos_da_gazela.htm
Palavra(s)-chave:
crispim
-
02.07.2008
Alterar tamanho da letra
Com esse título já deve ter ficado claro: o assunto que, no último banquete do 10 de junho, dominou a mesa deve ter se infiltrado nos sonhos da sesta e está por aqui de novo. O assunto é de novo uma canção de amor, mas, dessa vez, publicada em 1917.
Esta postagem, tenho de confessar, tem uma importância especial para este leitor que agora vos escreve, por tratar de um poema que sempre me impressionou, e que ainda me impressiona muito a cada leitura. Não acreditaria que alguma obra, sem conseguir despertar reações como essa em quem quer que seja, conseguisse manter realmente viva a nossa memória a seu respeito — por maior que pudesse ser a "autoridade" alardeada por essa ou aquela opinião crítica "oficial" sobre ela. As estátuas, os nomes de rua e os registros em manuais podem ser importantes, mas podem aparecer e desaparecer do mundo sem chegar, para a grande maioria de nós, a surtir qualquer efeito. Já um poema que tenhamos lido, e com o qual tenhamos podido nos impressionar, é diferente: passa a nos habitar como a memória que guardamos de alguém, alguém cujo reencontro, já sabemos, trará sempre um grande prazer. Além de compor o mapa da cidade ou o mapa dos grandes autores, passa a compor o nosso mapa afetivo: erige-se numa espécie íntima, e paradoxalmente mais indelével, de monumento, visitado sempre com gosto renovado. Ter lido a Divina Comédia de Dante, aliás, não nos basta: o bom mesmo é estar lendo, agora mesmo, um de seus tercetos. É nesse pequeno evento, recheado de prazeres diminutos, que se esconde o verdadeiro motor de toda essa história: estátuas, nomes de rua, registros em manuais, nomeações em academias, organização de fundações, revistas e sites de literatura, etc.
Mas chega de conversa. Vamos ao ponto. O ponto é "The Love Song of J. Alfred Prufrock", ou "A canção de amor de J. Alfred Prufrock", poema de T. S. Eliot (1888–1965). Ou vamos, na verdade, quase direto ao ponto.
I. Mais do que uma mera formalidade
Na postagem passada, lemos a estrofe de uma canção de Camões. Vimos — ouvimos — versos longos e curtos (de dez e de seis sílabas métricas) se alternarem num esquema sonoro que, se tivéssemos seguido com a leitura, ouviríamos ser repetido, de modo idêntico, na estrofe seguinte, inclusive a seqüência de ecos do esquema de rimas. Um pequeno parágrafo enciclopédico talvez seja agora oportuno.
As canções, assim como o soneto, que é talvez a mais conhecida das formas de poema, chegaram ao Portugal de Camões, com todo o seu arsenal de novas cadências, como um importado da Itália. Ficou para a história da poesia com o nome de dolce stil nuovo: o doce estilo novo. A "medida velha" medieval, que deu forma às mais variadas modalidades de cantiga, foi então se substituindo pela "medida nova" dos italianos, pródiga de combinações. Combinações como a que vimos no exemplo de Camões, entre metros longos e curtos, são, não por acaso, encontráveis em boas doses lá nas canzoni de Dante e de Petrarca, por exemplo (para quem quiser mais exemplos belíssimos do quão ricas podem ser, é uma boa pedida). Entre alguns poetas mais antigos, da Provença, é possível encontrar estrofes de mais de 40 versos cada uma, cheias de detalhes métricos e rímicos, formando esquemas, imagine, bem mais complexos (Ezra Pound, contemporâneo e amigo de Eliot, e estudioso dessa poesia, sempre lembra que, naquela época, claro, não existia televisão).
Embora possa parecer, hoje, à grande maioria de nós, tais exercícios, como o do próprio Camões, não são apenas um quebra-cabeça de números e palavras. A graça de um verso não está em cobrir um número x de sílabas, dispostas segundo tal ou qual padrão acentual, tarefa que pode nos parecer coisa engenhosa, mas pouco nos dirá sobre a arte da poesia. A graça de um verso está antes, sim, no canto concreto que fazemos soar quando lemos, naturalmente, cada um dos versos, um após o outro. São como tenores muito vaidosos que, sempre ciosos do momento de glória que cabe a cada um individualmente, sucedem-se num coro. Quando lemos dessa maneira um poema — maneira que a própria divisão em versos, visualmente, nos sugere —, o eco das rimas recupera a sua vida, as diferentes qualidades de vogais e consoantes ganham destaque, e os movimentos cadenciais de cada linha revelam (ou não, revelando antes o seu fracasso) a razão de se ter optado exatamente por aquelas palavras, e por aquela ordem, para se compor o verso. Terminamos, assim, mais suscetíveis à força dos padrões rítmicos, claros, que, ao longo do poema, reiteram-se, ou que se quebram para se refazer novamente lá na frente, etc. É do cruzamento entre a sensação auditiva assim organizada e o sentido das palavras que o poema vai construindo seus mundos. É a "permanente hesitação entre som e sentido", segundo a fórmula famosa de Paul Valéry.
Bem, e por que tanta firula antes de falarmos finalmente no poema de Eliot? A idéia é
1. oferecer a ouvidos não treinados algumas informações que, havendo interesse, possam ser úteis para o treino. Como campo de testes, aliás, sugeriria os poemas encontráveis em nosso próprio blog, ou mesmo o que for possível achar de Tomaz Antônio Gonzaga (sim, o Dirceu de Marília), Castro Alves ou Gonçalves Dias (o I-Juca-Pirama é quase hipnótico) pela web: tudo de graça; e
2. deixar claro quais os obstáculos que impedem os tradutores de poesia de, simplesmente, traduzir palavra por palavra, como as ferramentas automáticas de tradução da Internet, um poema. Não impedem, aliás; mas desaconselham, sob a pena de os fazer ouvir palavras nada bondosas dos que gostam de poesia, e dos que tentam tratá-la com responsabilidade.
"— E o verso livre?", alguém pergunta. Eliot vai dizer que "há apenas bom verso, mau verso e o caos". Aos que, a propósito, achem que a Libertinagem de Bandeira é uma arte plenamente livre, vale lembrar que é invenção de um dos melhores ouvidos do nosso rol de poetas. Mas esse é um assunto que fica para outra vez.
O mesmo Manuel Bandeira, certa vez, disse que "a poesia é feita de pequeninos nadas". José Lira, tradutor de Emily Dickinson, completou esse comentário recentemente em seu blog: "E a tradução poética, diria eu, de muito menos se faz". (Está aí, aliás, mais um bom campo de treino: emilydickinson.blogdrive.com).
Eliot já vem chegando.
Até o próximo.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
cânone poesia tradução T. S. Eliot
| 1| 2| 3| 4| 5| 6| Próxima